São Paulo, 07 de dezembro de 2015.

Sem título

Querida São Paulo,

Quero começar essa carta dizendo que te amei muito, muito. Amor daqueles de verdade, de arrepiar os pelinhos e fazer doer o coração. Me imaginar sem você? Longe de você? Fora de você? Jamais e com j maiúsculo.

Aí eu nasci, cresci, fiz amigos, estudei, casei, tive minha caçula, criei raízes pra sempre. Acontece, São Paulo, que tem horas que amar – infelizmente – passa a ser um detalhe no meio de  tantos problemas. E eu não aguentei. Arreguei. Joguei a toalha, pedi água. Água, verde, menos desespero, menos hora voando, menos almoço quente descendo na goela, pra respeitar o horário da escola contando com o trânsito. Mais qualidade de vida,mais flor na varanda, mais barulho de coisa alguma.

É difícil de entender, eu sei. Mas, não é nada pessoal apesar de ser. É que essa correria, essa insanidade, essa pressa, essa urgência, essa eterna necessidade de TER MAIS pra viver bem, me jogou na cama. E de repente, eu não tinha mais vida. Era só trabalhar, trabalhar, trabalhar e cada vez mais precisar de trabalho pra seguir vivendo no mesmo lugar. Eu já não tinha liberdade e nem tesão de viver aí. Só tinha hora, trabalho, pressa, falta de ar e o alarme virou a trilha sonora de uma vida cinza e chata.

Então, veio a primeira crise de ansiedade. E depois a segunda e a terceira. E junto com elas, a linda memória de ter sido criada de forma muito mais livre, mais leve e menos histérica do que tenho feito com meus filhos. E pra piorar, comecei a sentir falta de verde, de ar gostoso pra respirar, de caminhos que só pudessem ser trilhados com mais calma. De repente, eu só queria menos. E então… me desculpa o mau jeito, mas fodeu de vez. Tudo aquilo que mais me fazia falta, você não conseguia me oferecer há muitos e muitos e muitos anos.

Foram meses conversando, tentando entender como seria, amadurecendo a ideia-necessidade-desejo. E então, como tudo que tem que ser tem força, já foi. Sair daí era visceral. Eu precisava, eu queria.

E lá se vão 9 dias dias desde que me instalei no interior e já começo a sentir as diferenças. De um apartamento pra uma casinha gostosa. Do cimento pro verde.  Da vida com os segundos contados, pra vida onde dá tempo de fazer tudo e ainda dormir cedo. Dos filhos presos num apartamento, pros filhos soltos nas ruas de um condomínio seguro. Eu tô feliz, São Paulo. Mas melhor que isso é ver que as crianças mais felizes, livres, soltas.

A vida já está sendo outra, bem diferente do que aí. Aqui no interior, a gente tem menos, mas tem muito mais. Muito mais mesmo.
Aqui, vamos descobrir e redescobrir uma porrada de coisas que se perdeu na correria e no desespero da metrópole. Aqui, tem mais olho no olho, tem vizinho se chamando pelo nome, tem até cachorro da casa 5 filando boia na casa 7. Aqui tem bola de gude nas esquinas e fogueira na lua cheia pra comer marshmallow.

Eu fui feliz aí, mas minha hora chegou e eu decidi – apesar de todo o medo – ouvir a gritaria do meu coração que me suplicava pra pegar a estrada.
Eu fui feliz aí, mas eu já não era mais.

Sabe aquela puta sabedoria que diz que, não ter motivos pra ficar é motivo suficiente pra ir? Foi isso. Eu já não tinha mais motivos pra ficar.

Obrigada por tudo, São Paulo. De coração.

Agora eu vou ali, viver de outro jeito, mas seguirei te amando e sendo grata.

T,

 

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