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Chega

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Eu saí em tempo de chegar em casa, mas um louco fodeu a Paulista inteira e pronto. É questão de tempo pra chegar outra multa. Mais uma. São Paulo não anda. Um mar de carros virou a nossa rotina. Acostumamos a viver e (des)respeitar dentro do mais desorganizado caos.

Comigo está tudo bem, sim. Parece que eu tô revoltada, mas não. Não é revolta, é olhar para os lados e não ver saída, socorro, jeito, alternativa. É trancada dentro do carro me perguntar como é que vai ser daqui 5 anos e tentar prever os próximos 10. Ou 15. Como é que vai ser pros nossos filhos e netos? Sou tomada por um desespero mediano.

Porque, porra, era pra ser meia hora e lá se foi uma hora e meia. Acabaram as vidas do candy crush e já é a segunda rodada das músicas do iphone. E eu sigo aqui, uns metrinhos de nada a frente. Foda, foda, foda. Como é que seria sem o Candy e o som? Sinto um frio na barriga de calcular quanto do meu tempo fica nesse lixo que é São Paulo nesses dias. Nesses dias comuns. Normais. Sem motoboy esticado no chão e nem chuva de janeiro porque afinal, é agosto.
Suspiro profundamente pela pilha e meia de coisas legais e incríveis que me espera de braços abertos e provavelmente cansada. Tô cheia de viver aqui, desse jeito, nesse formato de cocô e nesse aroma levinha de poluição que leva a pele do nariz pra dentro do estômago.

Para cada 70 novas ideias, um metro andado. A mais sincera e imensa vontade que m invade é de deixar o carro no meio da Avenida e sair andando. Sem olhar para trás, sem perceber que a vida em São Paulo tá uma merda. De barulho, de sujeira, de nojeira, de corrupção, de trânsito, de mil amigos sendo assaltados.

O farol abre e fecha 50 vezes até que desligo o carro e aumento um pouquinho o som. Um cansaço irremediável gruda minha testa nada pequena no volante. A tia de trás buzina sem parar e xinga todo mundo que, como ela, está parado no caos.

“Orra, tia! Não buzina que não adianta, tia, pelo amor de Deus!!”

E então que vem Corine com sua voz doce e suave e forte. Poetando a vida com Like a star. Alguma coisa na voz dela me voa pra um lugar que não conheço, mas gosto muito e tenho saudade. Alguma coisa naquela melodia reduz a velocidade e a angústia de São Paulo em mim.

Fecho os olhos uns segundinhos e me ouço. Do meu íntimo mais íntimo, uma voz me diz que é hora de parar. Que minha vida está me esperando em Fiji. Num bangalô daqueles que dão vontade de chorar só de conhecer. No meio do mar com tudo dentro e all include.

Chega, São Paulo.
Eu tô com ódio de você. Muito ódio.

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Francisco, Clara e a morte do amor.

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Clara e Francisco se olharam diferente naquela quinta cedinho. O sol nem sequer tinha raiado. Não era hora nem para torradeira e tinha uma brisinha leve refrescando o ambiente. Nada fora do lugar, mas é que eles já sabiam. Já sabiam há muito tempo, mas escondiam num cantinho especial de si uma imensa dificuldade de assumir, digerir, amadurecer.  Porque isso de assumir as coisas dá trabalho. E eram anos e anos juntos, filhos, a casa do centro e a da praia, as roupas misturadas, os planos dos netos e os planos de saúde.
Ainda assim, apesar de tudo que era incrível. Ainda assim e de tantos mil outros jeitos, o amor tinha acabado.
Clara achava que todo dia um pouco e Francisco não era do tipo que prestava atenção.

“Ele tem outra?”, perguntavam as vizinhas de Clara. Clara sacudia a cabeça negativamente. Não tinha ninguém, ela sabia disso.
“Mas então o que, Clara”? E Clara consentia com a vida nos seus silêncios longos e sorrisos amarelos.

“Conta para gente, cara, o que foi que houve?”, queriam saber os amigos do futebol de Francisco. E Francisco não sabia dizer exatamente o que tinha havido. Talvez porque não tivesse havido mesmo.
“Mas a rotina, amigos… Vocês sabem. A rotina não poupa quem não cuida com amor do amor”.

Bingo. Era isso. Era mais ainda que ter outra. Era mais que uma pilha de desculpas indeferidas e coisas não ditas. E apesar de doer era um vazio suportável e leve. Clara não acreditava em contas, nem destinos, nem motivos e nem rotina. Clara acreditava que o amor tinha morrido de velho. Velhinho e cansado, segurando sua bengala e escondendo as rugas do sol das 10 hs. De morte natural, em pleno cochilo da quarta a tarde. Com a mantinha cobrindo as pernas e o casaco de lã protegendo as costas. O amor fez sua passagem para outro campo. E então, Francisco e Clara tornaram-se bons amigos.
Antes mesmo do dia raiar.

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Pra morrer basta estar viva.

 

 

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Nem um ano se passou e tudo já tão longe. Nem uma vida inteira se desfez e o tempo insiste em ser o cara que alterna um lado violento com outro incrível. Nem todos os intervalos foram preenchidos e já falta uma nova e infinita e extensa lista imensa de coisas a fazer, a sonhar, a colocar no papel, a deixar de deixar para lá. Uma pilha de coisa esperando só a coragem.

Não saber quanto tempo ainda há devia ser alvará de felicidade. Mas, no geral serve para que boa parte tente se proteger. A fim de minimizar os riscos da morte precoce, da morte que não planejamos, frequentemente cedo demais.
Ignoramos tudo que não é lindeza de internet. Há tanta vida lá fora, onde as coisas acontecem de verdade. Fingimos, maquiamos, colorimos, adiamos. Humanizamos como se só soubéssemos pensar com os poros.

Sabemos que morremos a todo segundo. Para cada final, 10 anos de envelhecimento gratuito. Para cada morte, uma nova penca de marcas de experiência adornando o rosto. Enquanto vivemos, enquanto choramos, enquanto ouvimos música e tomamos banho e pensamos no amanhã que não chega, apesar de acontecer todo dia. Enquanto não percebemos que a vida passa ela passa muito mais rápido. Cada instante é tão mais quanto bem menos.

Minha avó dizia sempre “Para morrer basta estar viva, Tatinha. Não esquece que vai acabar”.
É isso. Vai acabar. Então pára de deixar para lá esse troço de ser feliz.

 

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Dos reflexos.

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Antes de chegar à porta é obrigatório passar por um espelho. Não por vaidade, mas porque ele é parte do caminho estando pendurado naquela parede. Bem no centro da passagem, na altura exata para mostrar o que importa, o que vale, o que significa.
Naquela sexta cinza apesar do céu de instagram, em algum cantinho daquele reflexo que passava rápido em direção à porta, ela não se viu. E foi bombardeada por um medo tenebroso de não estar mais ao seu alcance, de ter voado pra tão longe, de modo que nem ela mesma pudesse se ter, se alcançar, se fincar. Se trazer de volta.

É estranho não se reconhecer passando pela vida apesar de todos os esforços, mas mais estranho ainda é passar por ela sem fazer nada.
Apesar da camiseta surrada e do coque que tenta dominar o cabelo, fazendo com que meia dúzia de gente a reconheça, até quando ela quer ser só um ventinho de outono. Outono com sol e poesia pra cima das durezas da vida. Outono com arco íris para justificar todas as segundas feiras. Apesar do jeans rasgado, de toda a saudade e de todo o vazio que costuma insuflar o estômago.

Alguma coisa naquela mulher que passava com pressa simplesmente não era. Nem ela. Nem dela. Ela volta devagar como quem tateia um filho dormindo. Naquele segundo ela é exatamente tudo aquilo que sente e faz e precisa. Um zilhão de poros abertos transbordando essa coisa boa de viver e pagar os preços, mesmo tendo que cair de cara no crediário de Deus. Pequenas parcelas, todos os dias, no matter what, de sei lá o que.

Com o nariz encostado no nariz, ela parece o medo de encontrar do outro lado um oco pobre e cansado. Em três instantes ensurdece por culpa do silêncio. Ao invés do som, o eco de uma sala gigantesca que abriga um monte de ausências dessas que não se resolvem, apenas se sente. Sem fim, sem data, sem hora pra acabar, mas com tanto motivo de ser.

Ali, de frente pros mesmos traços, as mesmas rugas e curvas idênticas, todas as tentativas e resultados. Todos os capítulos e os motivos, todos os senões, os intervalos e as valas onde invariavelmente todo mundo cai. Todos os dias guardados em pequenas gavetas da memória e todas as noites salvas no velho disquete.

Uma brisa vinda da janela lateral e um facho de sol trazem frescor e o quentinho que ela tanto busca. Não se reconhecer já não era mau, era só novo. Era o reflexo de cada coisa no seu tempo e cada tempo no seu instante.

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Sobre narrar o amor.

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Já fazia uns 4 dias que, por causa dela, nós falávamos mais sobre o amor e menos sobre a paixão. E suas inevitáveis consequências e seus conhecidos e sempre indubitáveis resultados.
Você queria mais amor e ela só sabia ser minimalista. Ela entregava praticidade e você pedia aconchego e colo.
Não era culpa, era circunstância. Mas acontece que o amor era novo e amor novo é aquele recém saído da paixão. É menos urgente, mas ainda tem pressa. Não sabe esperar mais que meia hora e um milésimo de instante.

Você queria entender como é que no seu verão, ventava e nevava tão forte dentro dela.
E ela só conseguia gostar mais e mais do frio, mesmo aparecendo na sua janela sempre de biquíni.

Numa noite você diz que amor só é amor se flui, se é livre, se vai e volta, se tem espaço.
E é mesmo. Porque amor encanado explode e amor reprimido sufoca até a morte.
Já o amor sem saída é igual bicho acuado. Vira fera e foge.

Vamos ainda mais longe e poetizamos a vida como há 20 anos.
Só é amor quando um precisa do outro. Não para viver, mas para viver feliz.
Só é amor quando parte da gente mora no outro e parte do outro mora na gente.
Você diz que parte dela pulsa em você. Ela parece querer dizer, mas nunca diz.
E a cada coisa não dita um passo para trás. E a cada coisa não dividida e sonhada e falada, novos e mais longos e tenebrosos silêncios.
Partes do amor murchando por falta de água e dentro de você um estoque de baldes cheios.
Te vejo insistir. Você e seu bravo amor quase incansáveis para ela, aquela linda mulher.
Te vejo cansar e entristecer. Te conduzo com o amor dos amigos para o sol quentinho. Piquenique com milk-shake de boas histórias e muitas horas de terapia não paga.

Você me pergunta se vai passar. Eu respondo sem pensar que vai.
Você quer saber se tenho certeza. E eu não digo só da boca para fora não.
Tenho certeza. Mais que absoluta.
Afinal de contas, até quando a gente não quer passa.

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A intimidade entre amigos.

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Uma das coisas mais incríveis que existe entre os amigos é a intimidade. Grosseira, crua, sem lapidação, sem revisão ortográfica ou sentimental. Há quem não encontre intimidade com mãe, pai, namorado, esposa, irmão, babá. Porque intimidade mesmo, pelada como veio ao mundo, essa sim é coisa dos amigos. Mas dos amigos de verdade, aqueles que fazem leitura digital remota do nosso globo ocular.
É do formato do amigo, da configuração peculiar do amigo. Configuração potente, com tanta capacidade para entender, apesar de tudo que sempre cabe no universo que é o apesar.

Conheço poucas sensações tão deliciosas quanto à de receber uma ligação de um amigo, em plena terça-feira chuvosa, dividindo comigo sacanagens impublicáveis. Ouço poucas frases gostosas como “Eu não posso falar isso com ninguém, só com você”.
Hoje cedo, no meio de momentos tensos, de aprovações duras, de telefonemas insanos por conta do trabalho, um amigo liga. A gente quase nunca se vê, mas está sempre lá, um pelo outro, com bastante certeza disso. E quando ele liga, eu já sei que só pode ser comigo. Sou sempre, em poucos segundos, tomada por um sentimento inenarravelmente bom. É a parte da vida dele que só eu conheço. É a nossa intimidade precisando dos meus ouvidos. Escuto. Falo. Faço silêncio. Entendo. Damos risada. Nos conhecemos há tantos anos que muita coisa nem precisa ser dita. Prometemos nos ver. Já faz tempo que não fazemos isso. Mas a vida é corrida e quase nunca dá. Ainda bem que a nossa intimidade já não depende mais da gente.

 

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