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A primeira formatura.

 

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Filho,

Hoje é um dia desses em que nós – eu e seu pai – estamos profundamente ansiosos e com o coração transbordando ainda mais orgulho e felicidade. É um sentir que provavelmente você só conhecerá quando estiver na mesma situação com seu primeiro filho. Dá um nó na garganta, um arrepio nos pelinhos, uma vontade de chorar lágrimas doces de alegria. Por você e por nós, porque nem sempre é tão fácil quanto parece, filho.

Hoje termina o nosso primeiro ciclo escolar. Nosso porque é igualmente a nossa primeira vez terminando o primeiro ciclo do nosso primeiro filho. E isso, Matheus, é como uma injeção a mais de orgulho naquilo tudo que a gente já sente de bom por você. Sabe o sorvete do Mc Donald´s? Que às vezes a gente pede com cobertura de chocolate extra? Deixa ainda melhor, mais doce, mais calórico, mais gostoso, mais, mais e mais.

Hoje você vai vestir sua primeira beca, vai ficar em cima de um palco pela primeira vez, vai se despedir de alguns amigos pela primeira vez. A primeira vez das coisas, filho, costuma virar lembrança para sempre. E a vida é feita de muitas primeiras vezes.

Agora você está na escola, fui abrir sua beca e chorei de emoção. Esse negócio de ser mãe mexe com a gente. É um troço tão profundo e devastador que não tem qualquer explicação. Quase tão simples quanto você ter sido gerado dentro de mim.

Filho, já quero te avisar que estarei na fila do gargarejo e que provavelmente vou me afogar em lágrimas. Tentando sobreviver entre o babar e o tentar recuperar o auto controle. A tal ponto de você me fazer aquela carinha de “pára de chorar desse jeito, mãe, não precisa!”.

É um desses dias ainda mais especiais, com cobertura extra de vontade de viver, de amor, de orgulho, de alegria. Vai ser incrível, filho. E nós estaremos lá, meu amor, como em todos os outros dias: juntos.

 

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Os ofendidos da meia idade

 

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Não sei como é a vida de vocês mas não sou ofendida todo o dia. Essa é uma constatação que pode ser pura falta de atenção, o que não duvido. É a mesma falta de foco para indiretas – não sei quem me manda indireta e se mandam não ligo porque não vejo (Tão óbvio que é redundante). Mas tem uma geração de ofendidos que cresce vertiginosamente; não falo de adolescentes, mas de adultos de meia idade que hoje se sentem constantemente julgados pela sociedade. Considero quase um problema de ego ou de não-aceitação, porque você não pode acreditar que todas as pessoas estão voltadas para te avaliar, para te analisar o dia inteiro. Pode ser mais um problema de não aceitar-se, então quanto mais pessoas aplaudirem suas atitudes, mais você estará feliz.

“Hoje tudo é bullying”. É verdade isso, hoje tudo é bullying e as pessoas não estão preparadas para lidar com a escrotidão humana que sempre existiu e vai existir. Se mais de três pessoas gargalham de uma merda que você escreveu, pronto é bullying – e é aí que os problemas sérios se perdem numa montanha de gente mimada que não consegue conviver com quem pensa diferente ou com quem é idiota (sim, tem uma pá de gente idiota no mundo). Uma coisa é você ser uma menina de 12 anos e ver a escola pedir para você cortar os cabelos, porque não está dentro dos “padrões”; outra é você mulher adulta se ofender porque a amiga comenta que o cabelo dela fica melhor quando está liso e não crespo. O gosto pessoal morreu e não é possível mais escrever o que te faz sentir-se bem, porque alguém vai tentar te provar que você é preconceituoso de alguma maneira – ou várias maneiras.

Você também não pode falar que quer perder aqueles 3 quilos, porque provavelmente está incentivando a bulimia e a anorexia. Eventualmente alguém que precisa de terapia está nas redes sociais e não no terapeuta e esta pessoa pode vir a morrer se continuar a ler o que você escreve, mesmo que você não escreva para a pessoa. <== Chegamos sim neste ponto, onde adultos – quando não estão se sentindo julgados, acreditam que influenciam muitas pessoas, num grau tremendo de importância que geralmente nem existe. Novamente um problema de ego, acredito.

Algumas pessoas precisam de suporte vocês sabiam? Nem todos os humanos possuem condições de lidar com problemas, ou o que considerem problemas. Acho bonito quando alguém fala que usar as redes sociais é o mesmo que fazer terapia. Acho bonito, mas isso está errado.(Essa parte não foi patrocinada por algum terapeuta, psicólogo ou psiquiatra, ok?) Lidar com a vida, lidar com as reações dos outros, com as nossas reações… Tudo isso é bastante complicado e se transforma em algo pior quando teóricos da vida alheia, etc, acreditam que o mundo é livre, você pode fazer o que quiser porque não existe o errado, você deve lutar pelo direito de fazer suas merdas em paz porque você mesmo é quem vai definir o que é uma grande cagada ou não, né? É um mundo lindo cheio de direitos e sem deveres e isso pode ser que gere algumas dúvidas nas pessoas, principalmente nesta geração que está sendo criada pela geração de adultos ofendidos. Falar que não existe ofensa, que não existe a ridicularização de manada, seria muita hipocrisia minha. O que não me conformo é com o que já escrevi: Adultos que muitas vezes travestem sua falta de auto-aceitação em bandeira de luta para toda uma sociedade. Ou ver adultos agindo como se merdas fossem coisas que não existem, sabem como é? Tudo é livre, você pode fazer qualquer coisa sem se preocupar com o que os outros pensam. Se essa parte fosse verdade, as pessoas não reclamariam tanto. Fazer merda/porcaria/errar é tão real/básico quanto beber um copo de água da torneira (apesar de algumas pessoas ficarem ofendidas de beber água da torneira) e se você não aprende com as próprias cagadas não é convocando um abraço coletivo, uma caminhada ou mesmo escrevendo um texto mostrando que você tem todos os direitos do mundo – acredite, você tem – e assim seus problemas sumirão.

***** Repare que os adultos que se ofendem mais, escolhem meticulosamente com o que se ofender. Fazem mais barulho quando odeiam o suposto ofensor e fingem que não estão vendo quando amam muito um outro suposto ofensor. Normalmente passaram por algum tipo de “iluminação” que vai de ser traído pelo parceiro(a) até não receber aquele emprego bacana que achava que ganharia de algum político.

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“Enquanto você escreve isso, estou lutando por seus direitos”. Você tem certeza disso?

 

Letícia Losekann Coelho tem dificuldades de se enturmar porque não é julgada todo dia pela sociedade. Aceita convites pra Open bar e não só para marchas e sorteios.

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Vai, foi!

2013-11-27 13.12.22

 

Já é minha terceira semana no pilates. Sempre chego em silêncio, com um pudor quase religioso. Nunca ninguém pediu para que fosse assim, mas eu tenho TOC emocional e acho que o lugar pede silêncio. Tiro o tênis lá fora e empilho no canto da mesa minha carteira, o celular e a chave do carro.

Ela sempre me recebe com um sorrisão e o abraço aberto em sinal de amor. Para depois, me passar duas vezes no triturador que é pra ficar mais fina e fácil de digerir.
No meu caso não começamos com alongamento, porque ela diz que comigo não tem graça, já que coloco os pés atrás da cabeça sem muito esforço. Em menos de 10 minutos do início experimento a sensação da manteiga na frigideira. Começo bem vagarosamente a derreter. O processo é bem parecido toda segunda e quarta: primeiro um quente sobe à cabeça e então começo naturalmente a ficar corada. 4 milésimos de pequenos instantes depois as bochechas passam a sentir-se em chamas, mas esse é só o começo. Na sequência, uma lágrima escorre de trás da orelha. E outra na lateral da testa, que com algum charme, faz a volta no olho e cai discreta nas costas, sendo desviada pelo fluxo das axilas. E mais uma e duas e mais quinze. Até que levanto os braços e noto que as pizzas estão lá. Acabando com qualquer chance de a gente ter alguma dignidade nesta hora suada. Estamos aquecidas e então (só então, imaginem vocês) é que ela começa a abandonar os traços delicados para tornar-se uma – ainda que adorável – carrasca.

“Sobe e se pendura. Corpo lá em cima, cabeça pra baixo. Cintura no teto. Não esquece de respirar! Força no braço pra se segurar. 4 tempos de respiração e FOI!”.

Olho insegura, mas ela é insaciável. Levanta a sobrancelha, ignora meu medo, reforça o comando e lá vou eu. Pernas no teto, cabeça para baixo. Cintura lá em cima. Suor escorrendo.

“Boa! Bora evoluir, não desce!”

Bora evoluir me dá frio na espinha. Mas, não posso me entregar pro frio se não caio e bau bau espinha. Afinal, estou me segurando em algo parecido com um trapézio na força dos braços e suando. Enquanto isso, os cabelos saem do rabo de cavalo e arrepiam para as laterais, me lembrando um pouco sobre a plenitude de ser uma mulher de cabelos indisciplinados e suando, tentando caminhar pros 40 com mais serenidade e a coluna reta.

“Boraaaaa! Espacate no teto, vamooooooo”.

“Vamos onde?”, penso eu. Mais do que isso, “Vamos de que jeito mesmo?”

Em três orientações, estou pendurada de cabeça para baixo, fazendo espacate no teto. Pobres braços. Procuro lá de cima por uma tipoia, caso precise de uma quando descer.

“10 desse, vamooooooooo. Se precisar descansa um pouquinho!”.

“Não dáááá!”, sofro eu, tentando me comunicar sem babar ao contrário.

“Vamos que dá!”

Acabo obedecendo para ver se termina mais rápido e porque discutir demora muito. O melhor é tentar me garantir de mim o quanto antes. Respiro fundíssimo e coloco toda a minha confiança na confiança que ela sente em mim.
Descubro todo dia que meus braços são muito mais fortes do que eu imaginava. Ultrapasso o limite que me impus de não me levar muito adiante, por puro medo. Do escuro, do mundo, de mim e do que vem na sequência.
Mas eu vou e acabo conseguindo e me surpreendendo e me reconstruindo. Dos traumas, dos fantasmas, dos medos e das dores no pescoço e nas costas.  No fim de cada aula, toda segunda e quarta é como se eu estivesse me começando de novo,  inteira.

Há 3 semanas, devagar e com uma delicadeza incrível, Patrícia me prova que dá. Que é tudo uma questão de respirar direito, confiar em si, manter a espinha ereta, o umbigo pra dentro, o abdômen contraído e as escápulas conectadas. Tudo isso com alguma força de vontade de chegar lá.
Sacou?

 

 

 

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Seja

Ser livre sempre fez muito sentido pra mim. Talvez porque eu tenha uma queda muito especial pelas coisas subjetivas e abstratas. As coisas que não cabem confortáveis dentro de um tuperware hermético com aquelas tampas que para abrir, são necessários um desentupidor e dois zeladores de prédio com experiência sacramentada de 15 anos em carteira.

Quem falou comigo disso pela primeira vez foi a Beta, minha prima. Eu devia ter uns 14 anos e ela, com imensa propriedade sobre as não coisas e os sentimentos humanos me disse:

“Tatinha, a gente só é livre quando a gente é o que é. Não existe outro jeito, não tem outro caminho.”

Não sei se ela se lembra disso, mas eu nunca esqueci, porque aquilo tinha muita verdade e muita poesia de janela de apartamento, ainda que eu não entendesse. Aquilo fazia sentido e explicava muita coisa, mas eu era só uma adolescente de 14 anos querendo aprender a tocar violão para ver se ajudava no medo do escuro.

Alguns anos mais tarde, em uma conversa com minha avó enquanto tomávamos café, ela falou que era livre porque não dependia de ninguém. E isso para mulheres nascidas na década de 20 era o caralho da liberdade! Ela nunca fechou o olho no meio de uma ventania porque tinha medo, mas achava incrível pagar os ingressos do cinema sem precisar do meu avô.
Meu pai não, meu pai achava que ser livre era não dar satisfação para ninguém, era poder sair sem dizer quando e SE voltava. Mas, ao mesmo tempo nunca se incomodou de ser escravo de suas próprias escolhas.

A realidade é que nos sentimos livres de milhões de jeitos. Viajando, aprendendo a dirigir, tomando vento na cara, andando de moto, saindo de casa, dormindo pelado, arrumando emprego e até criando vínculos a gente sente uma puta liberdade. Aquela coisa que parece o vento batendo na cortina da casa da praia, com aquele movimento leve e que traz a brisinha refrescante do fim de tarde.  Sentir-se livre pode ter qualquer formato e ser de muitos jeitos, dividido em fatias de momentos, pedaços de vida, instantes de coragem.  Ser livre não. A gente só é livre quando a gente é o que é. A Beta, como dizia minha intuição, tinha toda a razão.

* Foto: Leslie M.

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Vô,

Ontem recebi um presente e chorei de saudade.
Tanto de nós, muito de mim, pouco de você, tudo embaladinho e bem conservado numa caixa de papelão que na parte de cima tinha escrito: “cristais”. Sei lá se isso tem a ver, mas para mim faz muito sentido. E tudo isso num sábado lindo de sol com direito a brisa e milk-shake.

Nós dois de um jeito, vô, que olha, dá gosto de olhar e saudade de sentir.  Nosso amor e aquela cumplicidade absurda e surreal, apesar dos cinquenta e tantos anos de diferença. Em quase toda a caixa eu estou sentada no seu colo, rindo para você, agarrada no seu pescoço. E você, vô. Com uma cara de amor que eu choro de alegria de ter te escolhido para meu.

Fui pega desprevenida para me ver sendo amada naquele tom sutil, apesar de toda sua dureza.
Olhei uma por uma bem mais de duas vezes cada uma delas. Acho que no fundo queria lembrar de mais cheiros, gostos, músicas, pedaços do que a gente fazia junto e que me fazia sempre tão feliz. Passei dois dias trafegando entre minhas memórias e nossas fotos, porque o que eu queria mesmo era descrever aquilo de um jeito que as pessoas pudessem nos alcançar, sei lá.
E aí vô, me revirando atrás de nós, encontrei tanta poesia e tanta coisa boa e tanto mais amor e vontade e tanto colo e tanto tudo. Colo, vô. Acho que no fundo é sempre disso que eu estou falando, porque esse troço de ser carente não passa nunca. E lá na caixa, nos mais de 10 álbuns azuis e cinzas da Fotoptica, onde estamos, tem muito colo e tem muito você me olhando no olho.

Acho que no fundo é sempre só isso, ainda que pareça muito. Amor a gente sente, não tem motivo. Ele é e pronto. Amor é olhar e mexer com a gente. É ver essas fotos hoje e sentir exatamente aquele nosso amor, ainda que tenham se passado 33 anos.
Aliás, 33 anos que se completam hoje.

É. Amor não passa, vô.
Sorte a nossa, né?

Te amo.

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Queira.

 

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Eu acredito em um monte de coisas, apesar de não ser devota de nada nem ninguém. Mas, acima de tudo que desperta minha fé eu acredito na energia que a gente transpira por aí, deliberadamente, na cara dos outros e do mundo. Naquilo que a gente deixa de bom nos lugares e nas pessoas por onde passeamos cada vez que vamos embora.

Não é só estar na hora certa, no lugar certo e com a pessoa certa. É também a conduta que a gente tem com a vida e o valor que damos a ela. É o que escolhemos como prioridade e o que jogamos pro mundo. É como definimos o meio para chegar ao fim. É a nossa dedicação e disposição com a vida, com os outros e com tudo mais o que vier depois ou no meio disso.
É o ponto de vista, é a leitura e o sentido que damos para quem e o que. É o quanto de nós doamos para nós e para o que queremos de verdade.

No fim das contas, acho mesmo é que a vida tira uma média de tudo isso e mais um pouco. Nem tudo é sorte, nem tudo é merecimento, nem tudo é destino, nem tudo é suor. É o que tem que ser, de acordo com aquilo que a gente joga pro universo.  Se estamos acima da media, de alguma forma somos recompensados. Se estamos na média, assistimos a vida acontecer e fluir naturalmente. Se estamos abaixo há todo o tempo do mundo pra recuperar. É segunda época, é recuperação e o conselho de classe da vida.

Para mudar tudo, não precisa de dia marcado. Só precisa querer.
Ainda que para isso seja preciso bombar de ano e passar por tudo de novo.

 

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