Recent Posts

Viver é não passar impune.

 

Ausencia1

 

Ninguém passa impune pela morte de um pai, a não ser que ele tenha sido um verdadeiro monstro. Mesmo que distantes, brigados, ausentes, quando um pai morre um filho fica triste. O processo é doloroso para burro, as tripas viram nós cegos dentro da gente. Mas são transformadores e – ao menos para mim – além de renderem bons textos, os processos tristes servem como indiscutíveis lições de aprendizado. Amadurecer dói sim e dói sempre.

Dentro de perder o meu pai veio rever coisas, reorganizar pessoas, olhar de fora para dentro e de dentro para fora, como se eu jamais tivesse sido eu.

As experiências na ausência dele tem sido mais difíceis. O que antes eram lombadas grossas, onde eu podia passar em alta velocidade sem bater o tampo da cabeça no teto do carro, agora são valas profundas onde dá medo de cair e ser dragada pela Terra. E se ninguém sentir minha falta? Eu sou leonina, porra, preciso saber que o mundo não será o mesmo sem minha ilustre presença!

Tem sido insano e intenso o silêncio do para sempre. A ausência é uma equação sem solução precisando passar de ano. Dói e não passa, mas uma hora se acomoda num sofazinho velho e surrado dentro da gente.

O que fica depois disso é quem fica e o que você aprende sobre o tempo, sobre amar os outros, sobre estar com a balança milimetricamente certa caso precise usá-la. Os outros, nós, o tempo, a saudade, o desafio que é viver sabendo que daqui um segundo, o para sempre pode aparecer de novo e levar embora outra e outra e outra pessoa. E te levar também, claro. Amar fica diferente. Você passa a querer ser feliz nesse exato instante. Que pode ser seu suspiro derradeiro, quem sabe?

A lição de reconfigurar e olhar com honestidade e transparência para as relações, não é fácil não. Requer coragem, alguma dose de equilíbrio e bastante água para hidratar e deixar sobra para as lágrimas. Mas com o passar dos dias, a gente percebe que esse é o grande barato da vida. É escolher e não escolher, é achar que sabe e descobrir que a vida nos faz refém quando ela bem entender, é sentir e não dar bola, é sofrer tomando chopp. É ter saudade do pai que se foi, é se arrepender de não ter dito tudo, mas respirar o alívio de saber que você fez o que podia. E tá tudo bem.

Passar impune pelos processos, escolhas, pessoas e lições é exatamente o mesmo que ignorar a delícia que é isso de viver.

read more

A arte do equilíbrio

 

 

autoajuda01
Se você nasceu rico, vai sofrer as consequências disso e com sorte (ou seria azar?) vai ser assunto no blog do Sakamoto. Se você nasceu pobre vai sofrer mais ainda e eu nem preciso ir muito longe com os detalhes dessa condição.

Se você trabalha muito é provável que tenha fadiga, stress, dor nas costas, insônia e que fique bem menos com sua família. E vai se arrepender quando tiver todo dinheiro do mundo e notar que seus filhos cresceram independente da sua presença, que era (sim) indispensável. Se você não trabalha, por motivos de escolha (e não necessidade), dificilmente você sairá da área limitada e cinza e que vivem as pessoas que não trabalham por escolha.

Se você é um galinha incorrigível que não deixa passar uma mulherzinha por medo de não ter feito, é possível que conheça a solidão em um formato bastante rude. De noite e no quarto escuro ela parece o bicho papão da idade adulta. Mas se você não vive sem um cobertor de orelha sempre estável e fixo que esquente até a exata temperatura que te faz feliz, você estará abrindo mão de fazer coisas que só se deve fazer solteiro.

Viver é arte de encontrar equilíbrio mesmo quando tudo que há é a vontade única de sentir e sentir e sentir.

read more

Reflexo.

 

No reflexo do monitor do laptop um rosto meio cansado. Sou eu ali. O retrato dos dias de tensão junto com as noites de ansiedades e esperas e retomadas. Tanta coisa para tentar de novo que cansa na largada.

Dois traços bem fortes dos dois lados da boca. E no meio da testa outra marca que parece que franziu, mas não franziu não. Parei o que estava fazendo, minimizei todas as janelas e me fixei no contorno. No contorno de mim.
Tentei relaxar os músculos entre osso do nariz, testa e tudo mais. Estavam relaxados. Me olhei por uns três minutos enquanto lembrava como respirar respirando é bom. A sabedoria é a arte de prestar atenção.
Em mil momentos me detesto como se eu fosse meu único e maior inimigo. Em alguns raros eu me idolatro como um sobrevivente idolatra a liberdade.

Eu não canso de viver, mas meu reflexo, esse aqui na minha frente me diz que é hora de parar. Parar de ir tão longe e tão alto sem saber cair. Parar de querer ganhar o mundo quando tudo que se tem é só um monte de sensações que o mundo não quer  nem saber o que é e nem para o que serve. Outras cinqüenta vidas, por favor.!! E mesmo assim não vai dar, vai ser pouco. Eu acho tão fácil ser o que se é mesmo quando dói muito. Só que não pode, não cabe, é quase falta de educação, de inteligência, de polidez. Um atentado aos bons costumes. E então, eu mudo o rumo das coisas, quero clarear um tom. E danço uns tangos que até acho dramáticos, mas se é isso que tem para hoje, vamos lá. Dançar a vida, qualquer que seja a nota, para celebrar a arte que é viver.

Não é nada não. É só um dia qualquer em que eu me olhei com mais calma e atenção. E me achei mais velha e mais sábia e mais cansada, mas com um monte de boas experiências na gigantesca coleção de momentos que é a vida.
Abrigar novas marcas no reflexo do laptop é uma delícia e tem o charme especial de quem soube e sabe e reinventa os dias a a partir dos dias. Todos os dias.

read more

Quando amadurecer é entender que há poucas respostas.

A vida galopando num ritmo e intensidade que não consigo acompanhar. Já não sou mais rápida, já não tenho mais traquejo, aquela figura descolada que muita gente adorava desmaterializou-se. Puf! Virou fumacinha de café no coador de quinta se desfazendo na fervura das águas da vida. Aquela força, tudo farsa, um novo mundo, mais uma ausência, outros eus brotam dos meus cantos e já não consigo saber milimetricamente quem sou.
Algum dia eu realmente soube? Se amadurecer for entender isso, devo regredir quantas casas, quantos anos? É minha vez de jogar o dado? Cabe tudo de nós num único corpo? Sou milhares de criaturas, de espaços, de valas, de superfícies tentando respirar entre as pausas do mundo que tampam os buraquinhos do nariz. Sobreviver àqueles que querem tirar a vida à limpo o tempo todo é para os fortes.

Hoje sou e estou a vontade mais infinita de chorar. Assisto a banda passar como uma espectadora sem graça, apática, passiva, pra dentro e que quando age é pela sanidade dos outros. Sou tudo que critico sem dó em meia dúzia de gente que não vou com a cara. Como resolve essa angústia de se trancar no mesmo saco que eles?

Não sinto uma gota de orgulho da redoma em que confortavelmente me isolei. Ela machuca bem menos, é verdade, mas não sinto orgulho de estar confortável. Uma película blindada entre eu e o que não sou me separa de mim. E de repente eu acho que tudo isso deve ser coisa pra psiquiatra entender.

Não gosto dos textos truncados, das rimas burras, das frases de efeitos idiotas, da música que toca sem parar e alimenta a falta do meu velho. Tenho azia dos trechos que não significam nada senão a minha saudade, o meu vazio, o meu superego acariciando com jeito o meu ego rebaixado e confuso. O mundo, pai, não descobriu onde é minha tecla SAP.

Apesar de todas as centenas de experiências, pareço uma menina frágil e cansada que anda com um lenço no bolso depois de ter desaguado na padaria ao ouvir um pai chamar pela filha, que estava perto da estante dos queijos suíços.
O meu erro, a nossa merda, o escuro de todo mundo é tentar insanamente mensurar, procurar, arrumar, dar sentido. Entender. Motivos, razões e verdades viraram desculpas para fugir ao invés de enfrentar.

Para curar, o tempo machuca. Agora, nessa fração de segundo que me tornei, o tempo é um inimigo silencioso. Eu espero, eu sei. Já já ele se arrepende e vira bom amigo.  A coluna amoleceu e por isso a barriga ficou ainda mais flácida. Me sinto uma invertebrada e invertebrados – tecnicamente – não tem postura. Então me curvo sem culpa para isso que está acontecendo dentro de mim, comigo, de mim para mim. Porra, pai, que saudade.

Banhos e banhos quentes que enrugam os dedos e me levam para os momentos em que o maior dilema era ter que decidir em 45 minutos entre a saia ou o jeans surrado. E confesso, costumava preferir o jeans porque nunca tive talento para ser menina. Sentar com as perninhas juntinhas, depois de 7 minutos, dá dor no interior das coxas.
A única verdade cabível dentro da minha cabeça é que a gente passa a vida tentando entender como funciona o mundo, como pensam as pessoas, buscando razões para tudo, quando a única razão de viver é viver para não morrer sem ter vivido. E ponto. E simples.
E a outra única verdade plausível é que a gente faz isso só para transformar em petição em duas vias o que era para ser conversa de boteco regada dessas aleatoriedades deliciosas que não fazem sentido.

Assim seguimos resmungando e nos vitimando e caindo na auto piedade, o lugar quentinho que os fracos habitam.
Então, buscar tanto sentido serve para que? Quem inventou as regras, aliás? Tem o contato aí? Dá pra me atender por cinco minutinhos para explicar umas partes que não entendi?

Passamos boa parte da vida achando que amadurecer é compreende, interpretação, entendimento. Erramos feio. Amadurecer é na verdade parar de tentar entender e aceitar de uma vez por todas que algumas perguntas não tem respostas. E que o tempo é inexorável. E que portanto, o que resta é viver um dia de cada vez. Como se a gente acreditasse de verdade que o amanhã pode não chegar nunca mais.

read more

Saudade na fila do pão.

Estou na fila do pão. Quatro pessoas estão na minha frente. Um motoboy que trabalha na pizzaria da praça (mas o que ele faz aqui tão cedo?), uma senhorinha bem senhorinha, linda com o jornal embaixo do braço direito, uma menina ruiva e original com uniforme da escola da rua de trás (polainas nesse veranico?) e um fulano que não me diz nada. A padaria é a mesma de todos os dias e estou dentro do horário normal. As pessoas que estão tomando café são as mesmas de sempre também. Penso sem lógica alguma, desisti das razões já faz tempo. Porque essas pessoas tomam seus cafés todos os dias aqui com tantas padarias por perto? Devem ser – como eu – resistentes e preguiçosas. Mudar nas primeiras horas do dia pode bagunçar a vida para o resto da vida inteira.

O pão demora, “só mais cinco minutinhos, Dona Giselda, tá saindo, bem quentinho, ou a senhora quer levar o frio?” e o mundo segue girando. O fulano que não me diz nada tem um celular na mão. É moreno, deve ter por volta de seus 60 anos, conservado, e folhea um exemplar da revista Você S/A. Jeito de gente empinada. O celular dele toca e eu sem ter nada com isso presto atenção. Afinal foi na fila do pão que escrevi centenas dos meus textos. Tem coisa mais vida que fila de pão, gente? O fulano atende e antes mesmo de responder o OI, abre um sorrisão, os músculos do rosto dele relaxam automaticamente, seus ombros abaixam. Eu, que continuo não tendo nada com isso, mas sou xereta, acho logo que é a secretária loirinha ou a estagiária gostosuda. E acho também que ele está traindo sua mulher. Eu sofro com a velocidade das minhas percepções e mais ainda com a força da minha vontade em criar histórias para sair da realidade que anda doendo muito. Ele, o fulano, responde docemente: “Oi, filha. Que saudade que estou de você, meu amor!”

Eu sofro infinitas milhões de vezes e ainda mais. Passo num passe de mágica a achar o fulano, o pai mais doce do mundo e morro de saudade. Meu pai não falava de coisas bonitas, não lembro dele dizer que sentia saudade de alguém. Ele falava de cachaça, bunda, piiiiiiiiii, putaria e leis. Ah sim! E sobre carros! O resto ele fingia que não fazia parte, era um machista incorrigível e durão apesar de ter amado nuito. Meu pai, quando estava com saudade, ligava mal humorado e berrando: “Tatiana, sua filha da puta, você não me liga mais”. Na realidade tinha 8 horas que a gente não se falava, era o tempo de dormir e acordar. Mas já era o suficiente. Há quase três meses ninguém me chama de filha da puta, nem liga berrando por qualquer bobagem na minha orelha. Saudade é uma menina de trança, joelhos ralados e os olhos marejados.

O fulano combinou com a filha de almoçarem sábado “no italiano perto da sua avó, às 13, tá?”

Eu não queria que ele desligasse a ligação, era tanta saudade, e fui me alimentando daquilo que não me pertencia, de pessoas que nunca vi, de um pai que eu nem sei se é bom, que não era o meu e não me dizia nada.

A fila do pão anda. “Quantos, Dona Tatiana?” Eu odeio que me chamem de dona. “Três, Roberto, por favor”. Pego minha comanda e sigo para a fila do caixa. Choro esperando minha vez de passar o cartão. Choro olhando para moça do caixa que devolve o olhar com um pouco de pena. Não tenha pena não, é só saudade. É só continuar amando para sempre, só que de longe. E nesse caso, bem de longe.

read more

Estupro não dá rima!

Não costumo ser chata no ambiente online dos outros. Monitorar o tempo todo o que as pessoas falam em rede social é coisa que deixo com muito prazer para os stalkers, as fifis do mundo moderno.
Acredito muito (e de verdade) que todos nós podemos usar nossos perfis em redes sociais da maneira como queremos. Ali é um espaço pessoal e, portanto, um lugar onde se pode dizer, compartilhar, resmungar, publicar o que se bem entender. Mas calma, porque o que se bem entender também tem seus limites e não estou falando de censura. Censura sofreram Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius, Herzog e milhares de outros. Nós não passamos de um bandinho de gente meia boca que na ausência de uma causa para abraçar, luta com unhas e dentes pela falta de limites. Só que não pode. A menos que a gente queira voltar para a Era pré-histórica em termos comportamentais.
Como seria por exemplo se pudéssemos socar pessoas só pelo fato de não irmos com a cara delas?
Conviver com pessoas e ser parte de uma grande comunidade implica cumprir determinadas regras e respeitar limites. Somos 7 bilhões, é isso? Diferente do que provavelmente alguns irão dizer, não é censura. Estou aqui falando mesmo é de bom senso, estou falando de assuntos e temas que mexem com o senso comum, com um coletivão enorme de gente. E pelo menos a mim, parece que bom senso está virando artigo de luxo no marzão da web.

Adoro piada, mas achei a do Rafinha Bastos (aquela velha envolvendo a Wanessa Camargo e o bebê) um excesso. Ele pode fazer? Claro que ele pode fazer, mas acho difícil que alguma mulher que já tenha estado grávida tenha aberto um sorrisinho amarelo sequer daquilo. Gravidez é coisa séria. É gerar vida, tem um efeito devastador sobre uma mulher. Uma fase chata, com os nervos à flor da pele, as pernas inchadas e o mundo dizendo que é super pleno! Aí você está lá, perto de parir e o cara fala em rede nacional que comeria você e o bebê. Comer um bebê, pessoal. É nojento, é miséria humana. Porra, não tem graça, é coisa de menino de pintinho mole que tem no objetivo da vida chegar nos 100.00 followers e acabar no arquivo confidencial do Faustão. Não é censura, não vale, tá na regra do jogo, na bula que conta sobre o respeito. É mau gosto, é vulgar é TOSCO. Não é a piada com a finalidade de fazer pessoas felizes, de entreter, de fazer humor inteligente. É o humor de quem quer ganhar dinheiro criando e se alimentando de polêmicas desastrosas e negativas. Gente que acha que falar o que pensa é “cool”, faz parte, gera mais polêmica, mais atenção, e ufa, a bola de neve que conhecemos bem.

Algumas manifestações não são aceitáveis e ponto final, sem qualquer chance de discussão na minha cabeça.
Tudo isso porque hoje, dando uma volta pelo twitter, encontrei um link que por algum motivo me chamou atenção. Abri e fiquei triste, triste para cacete.

<a href=”http://www.taticavalcanti.com.br/wp-content/uploads/2012/07/depre.jpg”><img class=”alignnone size-full wp-image-704″ title=”depre” src=”http://www.taticavalcanti.com.br/wp-content/uploads/2012/07/depre.jpg” alt=”" width=”644″ height=”364″ /></a>

Não é um meme isso, me desculpem. Parei e pensei na quantidade de pessoas que se sentiram feridas ao olhar para essa imagem. É machista, é burro, é insano, é pobre, é horroroso, dá vontade de vomitar, de socar o responsável. E fere  mesmo porque vasculha valores, atropela princípios importantes, chacoalha conceitos de família, cospe na cara da inocência de quem nem nasceu.  Fere também os homens legais, interessantes e inteligentes, que fazem o mundo valer a pena, que fazem tudo ter mais graça e que muito pelo contrário, não precisam jamais – em tempo algum – forçar uma mulher a nada. Não existe piada envolvendo a palavra estupro para uma mulher, colegas. É deveras violento para ser risível, escuro demais para dar um tostãozinho furado de tesão.

“Levem menos a sério” é o cacete! Nem no contexto de piada, não pode ter graça para ninguém.
A menos que você, autor do post e da publicação da imagem, queira que isso aconteça para sua filha. Ou para sua mãe. Você tem avó? Desejo a elas toda sorte do mundo nesse momento tão especial e espero que você asse o peru esperando-nas voltarem para casa.

Tem limites.  E para aqueles que acham que isso é só uma piada, termino esse texto de segunda dizendo que a cela da cadeia também é SÓ uma sala apertadinha.

read more
Página 10 de 16« Primeira...89101112...Última »