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Dias de medo.

 

 

O dia começou como todos os outros.
Levanto, tomo um café e ligo a TV pra pegar o fim do jornal da manhã.
Chico Pinheiro está contando do médico que atirou contra o outro médico por causa do problema na uretra. Nada mais natural do que alguém, não satisfeito com uma cirurgia, tentar matar seu médico. Menos de cinco minutos depois, um amigo (também médico) me manda uma mensagem sugerindo um texto sobre a “intolerância à frustração”.

Mundo louco esse em que estamos vivendo.  Porque não dá nem para dizer que estamos intolerantes somente às frustrações. Estamos intolerantes com absolutamente tudo, incluindo amor, contato físico, bons sentimentos e vibrações. Estamos intolerantes com a vida, com o mundo, com os outros, com nós mesmos, com o rumo das coisas. A ponto de confundirmos sacrifício com amor.
Geramos filhos e os abandonamos de diversas formas. Olhamos para nossos velhinhos sem enxergá-los e, fazemos cada vez mais questão de ignorar suas necessidades, em nome da nossa pressa. Judiamos de animais, maltratamos a natureza, nos preocupamos cada vez menos com os outros. Iniciamos infindáveis guerras por motivos religiosos. Em nome da fé – justamente ela, que mais deveria nos aproximar de qualquer Deus. Vamos ao estádio pelo amor ao futebol e, pelo amor ao futebol xingamos, ofendemos, julgamos pessoas de maneira horrorosa, praticando nosso pior em nome do “amor”. Matamos e morremos – todos os dias muito mais – por coisas, por ambição, por ganância, por dinheiro.

Tenho uma brisa de vontade de saber em que momento desaprendemos, confundimos e perdemos tanto o valor das coisas e das não coisas. Mas, logo passa porque nada me faz entender pra onde estamos caminhando com o mundo.
Nada de novo, eu sei. É assim desde sempre, mas talvez com um agravamento nos últimos tempos. O dia começou como todos os outros. Só que hoje, eu tô com um pouco mais de medo da gente e o café não desceu tão bem.