Mais amor.

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Sexta-feira Ligia e eu fomos ao show do Toquinho na Terra da Garoa, casa nova no centro de SP. Tudo maravilhoso: ambiente, atendimento, decoração, tudo impecável. Puta show, Toquinho incrível, músicos ótimos, só elogios. Entre chegarmos e o show começar passaram-se 2 horas. Durante esse tempo jantamos, batemos papo, falamos de trabalho, de vida, das próximas missões juntas e também falamos muito de como estamos – TODOS – nos relacionando com as coisas e as pessoas.

O assunto começou porque apesar de conhecermos esse comportamento, aquela noite nos impressionou mais: boa parte das pessoas passou a maioria do tempo conectada ao celular. Eu me pergunto o que é que está faltando – de verdade – para toda essa gente. Interesse? Tesão? Estímulo? Como é que a gente pode achar tudo bem as pessoas não conversarem mais entre si? Como é que, estando em uma situação tão “gostosamente real”, a pessoa só consiga suportar a conexão com o celular? Lá dentro não machuca, é isso?

Na mesa atrás da nossa, por exemplo, havia um casal que aparentava estar entre os 35 e os 45 e que não trocou mais do que uma dúzia de palavras. Estavam ali, juntos, dividindo a mesa – e provavelmente as contas, mas nada de amor. Nada de conversinha, risadinha, piadinha. Nada de nada. Estavam fisicamente e olhe lá. Em outro caso, duas mesas para a direita, falavam pouco, não se olhavam nunca e jamais largaram seus smartphones. Então, entre uma frase minha e uma da Ligia, nos notamos solitárias no “velho hábito” de conversar. Quase como se insistíssemos nisso que é se relacionar ao vivo, de verdade.

Olhamos à nossa volta enquanto ela sussurra:
“Impressionante como as pessoas se isolaram e se isolam cada vez mais”

Impressionante e incompreensível. Eu entendo a gente estar conectado (e muito), acho que devemos usar – corretamente – e muito a tecnologia a nosso favor, mas não acho que o que estamos fazendo é exatamente isso. Sei que as necessidades mudaram, que a velocidade é altíssima enquanto a expectativa é quase inexistente, sei que o comportamento foi atingido em cheio e que as relações são impactadas por como usamos a internet. Sei de tudo isso, mas não entendo que estejamos deixando de lado o melhor das relações: a sutileza de ler o olho, a segurança de reconhecer a voz, a gostosura de estar junto, frente a frente, sem o intermédio de um smartphone. Sem estarmos escondidos ou protegidos ou amparados por nada.
Nós. Simplesmente inteiros, em um momento que não voltará.

Não entendo a escolha pela frieza da banda larga ao quentinho do colo, o digital – sem gosto e sem cheiro – ao real, que tudo nos causa. Não entendo estarmos cada vez mais para dentro, sozinhos, isolados, podendo estar com amigos, podendo escapar para um cafezinho fora de hora, podendo fazer um telefonema ao invés de só se comunicar pelo whatsapp.

Estamos levando para a vida pessoal a otimização, a praticidade, a frieza da tecnologia. Estamos esquecendo as pequenas – as menores – manifestações de carinho e amor e mergulhando cada dia mais fundo nas profundezas das relações superficiais.
Não gosto de olhar pros lados e perceber uma humanidade sem traquejo entre si, encarando este comportamento como normal.
Não fico confortável exatamente por achar que os efeitos são nossos “velhos” conhecidos: ainda mais descompromisso, mais desapego com as relações, mais despreparo emocional.

É, para mim, uma equação que termina mal. Com muito mais mortos e feridos do que se houvesse um pouquinho mais de atenção e amor nesse lugar incrível de viver que é a vida real.

 

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