A gente não sabe perder.

 

Sem título

No fim do primeiro tempo a gente já sabia que não dava mais. Junto com milhões de brasileiros e louca por futebol, sou tomada por um profundo pesar. Por aqueles meninos, por todo esforço, por saber como é tentar e não conseguir, pelo resultado, por nossas expectativas, por nossas dores, por nossas perdas. Mas, especialmente por termos nos resumido a isso: o país que, já que não é bom em porra nenhuma, tenta ser o mais fodido no futebol e coloca ali – no gramado, nos jogadores, no técnico, na delegação, na estratégia – todas as suas expectativas de “felicidade”. Tanto tanto, a ponto de elencarmos o resultado das eleições com o do torneio.
Socamos e sovamos tudo na mesma panela sem a menor responsabilidade. E somos tomados por emoções absurdas, que nos engolem, nos alucinam, como um bando de tolos e analfabetos emocionais, incapazes de separar as coisas.

Por outro lado, também sei que perdemos tanto – como povo e como país – e sempre, e estamos tão cansados, que não sabemos mais perder. Não suportamos mais perder. Não queremos mais perder. Nada. E então, quando acontece, esquecemos tudo e saímos agredindo pessoas e coisas, esbravejando nomes, apontando, como se tivéssemos aproveitado todas as nossas chances de gols. 100%. Do sofá de casa, com a cerveja gelada na mão, claro.No começo do segundo tempo começamos a buscar culpados, responsáveis, algozes. As redes sociais começam a mostrar as primeiras piadas e os primeiros “Não disse?”, “Fora Felipão, Fora Dilma”, “Fred cuzão”, “BEM FEITO, BRASIL!”.  Nos tornamos cada vez menores diante de tamanha derrota. Se tomar 7 gols não é fácil para nós, que dirá para eles que estão lá. E aumentamos o tom do julgamento cruel. É o óbvio: somos nós quando ganhamos, são eles quando perdem. E mergulhamos imediatamente no fundo do poço, sem qualquer dignidade. 7 gols.
Olho para aqueles meninos chorando e tentando sem conseguir e me comovo profundamente. Não dou conta do que viramos de repente. Não consigo acompanhar o coro que diz que “eles ganham para isso, porra”! Leio amigos inteligentes: “Felipão, explica pro meu filho que tá chorando, seu cretino de merda!” e não consigo acreditar. Não, eu não sou Peter Pan, mas preciso seguir acreditando que podemos ser melhores. Como seres humanos.

Então, por um instante, o jornal deixa de noticiar o vexame, para contar que a Vila Madalena está sendo destruída, que ônibus estão sendo queimados, que torcedores revoltados estão tocando fogo em bandeiras brasileiras em plena Avenida Paulista. Vejo meia dúzia de cenas sem querer mais nada disso. Sinto uma tristeza foda de resolver dentro de mim. Porque não é utopia, é uma certeza: podíamos ser melhores em nossa conduta. Em diversos âmbitos, mas sempre como seres humanos.

Perder é sempre uma merda, mas faz parte. Agora, perder como fizemos hoje, com esse comportamento lamentável, me parece muito mais covarde e pior do que tomar 7 gols na semi final da Copa do Mundo. Em casa.

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