MODO AVIÃO 

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Então tô cansada, dormindo super pouco há dias e com a cabeça devagar – quase parando. Com tantos bons motivos, decido que essa noite não vou trabalhar. Por nada. Dinheiro nenhum, cliente nenhum, job nenhum. Nadinha me tira do Modo Avião.

Em meus planos, me projeto largada no sofá, amparada por cobertores peludos, de pijama e meia macia. Respirando pelo simples fato de não ser a fim de morrer. Dividindo espaço com um ou dois dos meus gatos, que insistem em não resistir a essa coisa fofa que me tornei. Negocio comigo que, no máximo, terei o controle remoto na mão para decidir entre o jornal e o Saia justa. Só que jornal tá foda de ver, desesperador. Saia justa, não. Saia justa eu amo. Hiperventila o universo caótico que é minha cabeça e me faz me encontrar nesse planeta que é ser mulher.

Boa. Controle remoto na mão e mais nada. Nem celular que vem com whatsapp, instagram, facebook. E mesmo longe, botei no mudo que é pra aguentar a tentação e não esquecer que tô cansada. Exausta. Retalhada. E que preciso descansar até para terminar aquele parágrafo final do job – aquele que emperrou. E emperrou por quê? Cansaço, certeza. É só dormir e plim! Acordar com o parágrafo prontinho pra sair no xixi e ganhar o mundo.

Eu tenho crise de pânico quando falta um parágrafo e não consigo resolver. É quando o mais absoluto horror se instala aqui dentro e devasta tudo. Não durmo, não como, não respiro. Fico ali ruminando aquele troço: um parágrafo. Não me perdoo. Mas, tudo ótimo – afinal? Em poucos segundos desligarei a chave geral e acordarei somente amanhã com Matheus e sua pergunta inicial de sempre: “Mãe, acorda. Você ainda quer dormir?”

Me jogo no sofá com cobertor, dois gatos, uma série de pensamentos que me fazem flutuar e essa filha da puta de saudade dessa coisa que eu não vivi . Coloco no GNT. Finalmente me ajeito com a calma de quem sublimou a loucura de todo-o-dia-ela-faz-tudo(quase)-sempre-igual. Não é noite de saia justa, errei. O jornal tem a cara do Jucá e do Temer. Na segunda zapeada, cai o sinal da porra da TV. Culpa do vento noroeste.

Eu poderia meditar, mas não sei, não tenho paciência e nem condição mental de atingir a estratosfera perfeita praqueeeela meditação. Também poderia subir para buscar um livro, mas honestamente? Não levanto daqui por nada. Prometi. E já que essa é a realidade que se apresenta, me resta admirar a beleza do teto. O que de certa forma é um jeito de meditar. Sem técnica, sem sucesso, mas um jeito de meditar. Inspiiiira. Respiiiira. Contempla o teto. Contempla o teto. Dá uma pausa. Tira isso da cabeça. Respira. Inspira. Expira. Lá pro fundão, arzinho!

A ordem dos acontecimentos altera o resultado? Foda-se. Na quarta inspiração chego perto do transe. Porque pra quem respira como eu, inspirar 4 vezes bem fundo, dá um barato irrevogável que leva pra lua numa pirueta rápida e te devolve em 5 segundos. E desta vez, com o último parágrafo do job pronto, perfeito, redondo. Mas, não. Não vou levantar. Prometi pra mim que não ia e que preciso, necessito e vou ficar aqui. Curtindo o ócio sem culpa, por uma noite. Não é demais isso? Incrível, mesmo. Excelente.

Apesar que esse parágrafo, está bem bom, viu? Ornou e fecha o job com uma frase de efeito inteligente. E esse frio? Tá muito, né? Já não é mais querer. É não conseguir levantar. O vento canta lá fora. Que raiva. Podia ao menos ter deixado o celular aqui perto. Anotaria e voltaria pra contemplação do teto em 1 segundo. Mas não.

Agora só falta esquecer a porra do parágrafo. E isso pode rolar fácil.
Meu sistema nervoso alerta que em 5 segundos esquecerei.
3 segundos.
Não é todo dia que em 4 inspiradas, o parágrafo que fecha o job vem tão perfeito.
Foda-se. O modo avião. Claro!

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Pra morrer basta estar viva.

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Nem um ano se passou e tudo já tão longe. Nem uma vida inteira se desfez e o tempo insiste em ser o cara que alterna um lado violento com outro incrível. Nem todos os intervalos foram preenchidos e já falta uma nova e infinita e extensa lista imensa de coisas a fazer, a sonhar, a colocar no papel, a deixar de deixar para lá. Uma pilha de coisa esperando só a coragem.

Não saber quanto tempo ainda há devia ser alvará de felicidade. Mas, no geral serve para que boa parte tente se proteger. A fim de minimizar os riscos da morte precoce, da morte que não planejamos, frequentemente cedo demais.
Ignoramos tudo que não é lindeza de internet. Há tanta vida lá fora, onde as coisas acontecem de verdade. Fingimos, maquiamos, colorimos, adiamos. Humanizamos como se só soubéssemos pensar com os poros.

Sabemos que morremos a todo segundo. Para cada final, 10 anos de envelhecimento gratuito. Para cada morte, uma nova penca de marcas de experiência adornando o rosto. Enquanto vivemos, enquanto choramos, enquanto ouvimos música e tomamos banho e pensamos no amanhã que não chega, apesar dele acontecer e ser todo dia. Enquanto não percebemos que a vida passa, ela passa muito mais rápido.
Cada instante é tão mais quanto bem menos.

Minha avó dizia sempre “Para morrer basta estar vivo”.
E para viver melhor – seja lá o que isso signifique – não pode esquecer que vai acabar.

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