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A vida quer coragem, o mundo quer motivo.
Justo anteontem. Depois, justo ontem. Agora justo hoje.
Eu quero silêncio, eu não quero motivo.

Quanto menos me mexo, mais ele, sem parar e incansavelmente, se agita, se re-organiza, se mexe.  In-ces-san-te-men-te.

Porque tem que girar. Porque tem que seguir. Porque tem que olhar para frente. Porque tem que.  Mas, eu. Eu olho pela janela buscando um ponto de referência estático. Um respiro. Um porto. Um lugar pra me agarrar. Um alívio para essa tontura, que é ter que explicar aquilo que a gente não entende, enquanto tenta se recolocar. Pro mundo, no mundo.

Isso tudo que não se aquieta a minha volta. Isso tudo que gera essa puta angústia – que vai passar, mas até lá, vai consumir. Pedaços, noites, dias, pratos e pratos de mim. Sem parar. Girando. Porque é assim. Isso tudo de enorme que é tão forte que já nem dói.

Quanto mais o mundo quer – de mim – o mundo, mais eu quero só um cantinho.
Quanto mais ele quer caber na minha dor, menos eu consigo dividir o meu espaço.

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Dias de medo.

 

 

O dia começou como todos os outros.
Levanto, tomo um café e ligo a TV pra pegar o fim do jornal da manhã.
Chico Pinheiro está contando do médico que atirou contra o outro médico por causa do problema na uretra. Nada mais natural do que alguém, não satisfeito com uma cirurgia, tentar matar seu médico. Menos de cinco minutos depois, um amigo (também médico) me manda uma mensagem sugerindo um texto sobre a “intolerância à frustração”.

Mundo louco esse em que estamos vivendo.  Porque não dá nem para dizer que estamos intolerantes somente às frustrações. Estamos intolerantes com absolutamente tudo, incluindo amor, contato físico, bons sentimentos e vibrações. Estamos intolerantes com a vida, com o mundo, com os outros, com nós mesmos, com o rumo das coisas. A ponto de confundirmos sacrifício com amor.
Geramos filhos e os abandonamos de diversas formas. Olhamos para nossos velhinhos sem enxergá-los e, fazemos cada vez mais questão de ignorar suas necessidades, em nome da nossa pressa. Judiamos de animais, maltratamos a natureza, nos preocupamos cada vez menos com os outros. Iniciamos infindáveis guerras por motivos religiosos. Em nome da fé – justamente ela, que mais deveria nos aproximar de qualquer Deus. Vamos ao estádio pelo amor ao futebol e, pelo amor ao futebol xingamos, ofendemos, julgamos pessoas de maneira horrorosa, praticando nosso pior em nome do “amor”. Matamos e morremos – todos os dias muito mais – por coisas, por ambição, por ganância, por dinheiro.

Tenho uma brisa de vontade de saber em que momento desaprendemos, confundimos e perdemos tanto o valor das coisas e das não coisas. Mas, logo passa porque nada me faz entender pra onde estamos caminhando com o mundo.
Nada de novo, eu sei. É assim desde sempre, mas talvez com um agravamento nos últimos tempos. O dia começou como todos os outros. Só que hoje, eu tô com um pouco mais de medo da gente e o café não desceu tão bem.

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Mais amor.

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Sexta-feira Ligia e eu fomos ao show do Toquinho na Terra da Garoa, casa nova no centro de SP. Tudo maravilhoso: ambiente, atendimento, decoração, tudo impecável. Puta show, Toquinho incrível, músicos ótimos, só elogios. Entre chegarmos e o show começar passaram-se 2 horas. Durante esse tempo jantamos, batemos papo, falamos de trabalho, de vida, das próximas missões juntas e também falamos muito de como estamos – TODOS – nos relacionando com as coisas e as pessoas.

O assunto começou porque apesar de conhecermos esse comportamento, aquela noite nos impressionou mais: boa parte das pessoas passou a maioria do tempo conectada ao celular. Eu me pergunto o que é que está faltando – de verdade – para toda essa gente. Interesse? Tesão? Estímulo? Como é que a gente pode achar tudo bem as pessoas não conversarem mais entre si? Como é que, estando em uma situação tão “gostosamente real”, a pessoa só consiga suportar a conexão com o celular? Lá dentro não machuca, é isso?

Na mesa atrás da nossa, por exemplo, havia um casal que aparentava estar entre os 35 e os 45 e que não trocou mais do que uma dúzia de palavras. Estavam ali, juntos, dividindo a mesa – e provavelmente as contas, mas nada de amor. Nada de conversinha, risadinha, piadinha. Nada de nada. Estavam fisicamente e olhe lá. Em outro caso, duas mesas para a direita, falavam pouco, não se olhavam nunca e jamais largaram seus smartphones. Então, entre uma frase minha e uma da Ligia, nos notamos solitárias no “velho hábito” de conversar. Quase como se insistíssemos nisso que é se relacionar ao vivo, de verdade.

Olhamos à nossa volta enquanto ela sussurra:
“Impressionante como as pessoas se isolaram e se isolam cada vez mais”

Impressionante e incompreensível. Eu entendo a gente estar conectado (e muito), acho que devemos usar – corretamente – e muito a tecnologia a nosso favor, mas não acho que o que estamos fazendo é exatamente isso. Sei que as necessidades mudaram, que a velocidade é altíssima enquanto a expectativa é quase inexistente, sei que o comportamento foi atingido em cheio e que as relações são impactadas por como usamos a internet. Sei de tudo isso, mas não entendo que estejamos deixando de lado o melhor das relações: a sutileza de ler o olho, a segurança de reconhecer a voz, a gostosura de estar junto, frente a frente, sem o intermédio de um smartphone. Sem estarmos escondidos ou protegidos ou amparados por nada.
Nós. Simplesmente inteiros, em um momento que não voltará.

Não entendo a escolha pela frieza da banda larga ao quentinho do colo, o digital – sem gosto e sem cheiro – ao real, que tudo nos causa. Não entendo estarmos cada vez mais para dentro, sozinhos, isolados, podendo estar com amigos, podendo escapar para um cafezinho fora de hora, podendo fazer um telefonema ao invés de só se comunicar pelo whatsapp.

Estamos levando para a vida pessoal a otimização, a praticidade, a frieza da tecnologia. Estamos esquecendo as pequenas – as menores – manifestações de carinho e amor e mergulhando cada dia mais fundo nas profundezas das relações superficiais.
Não gosto de olhar pros lados e perceber uma humanidade sem traquejo entre si, encarando este comportamento como normal.
Não fico confortável exatamente por achar que os efeitos são nossos “velhos” conhecidos: ainda mais descompromisso, mais desapego com as relações, mais despreparo emocional.

É, para mim, uma equação que termina mal. Com muito mais mortos e feridos do que se houvesse um pouquinho mais de atenção e amor nesse lugar incrível de viver que é a vida real.

 

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Algumas coisas que a gente precisa saber sobre o amor.

 

 

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- Que como todas as outras coisas da vida, o amor não é bonito o tempo todo. Alguns dias ele acorda de mau humor, com o cabelo desajeitado, fala palavrão e solta pum;

- Que ele leva desaforo para casa sim, que ele aguenta um caminhão de coisas, que ele vai além, que a capacidade de compreensão dele é foda, mas que ele também gosta de limite. Pra tudo: ausências e excessos;

- Que ele precisa de luz do sol e água fresca todo dia. Onde luz do sol é conversa e água fresca é carinho;

- Que ele às vezes é colorido e às vezes cinza, que ele tem fases e que ele adora bombons. Light ou não.

- Que ele precisa dançar de rosto colado e ouvir te amo sempre que houver para dizer;

- Que ele transforma, que ele transcende, que ele altera a ordem das coisas;

- Que ele gosta de cafuné, café quentinho, conchinha, sussurro, maluquices e companhia.

- Que ele odeia solidão;

- Que ele é mais esperto do que parece e faz escolhas racionais;

- Que ele gosta daquele silêncio tranquilo, de quem não precisa falar só por dizer. Mas, só desse.

- Que ele precisa de férias; de respiro e que se pressionar demais ele espana.

- Que ele só fica em pé em cima dele mesmo.

- Que como todas as outras coisas da vida, ele acaba. E não é porque acaba que nunca foi de verdade. Ou que sempre foi de mentira.

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A gente não sabe perder.

 

Sem título

No fim do primeiro tempo a gente já sabia que não dava mais. Junto com milhões de brasileiros e louca por futebol, sou tomada por um profundo pesar. Por aqueles meninos, por todo esforço, por saber como é tentar e não conseguir, pelo resultado, por nossas expectativas, por nossas dores, por nossas perdas. Mas, especialmente por termos nos resumido a isso: o país que, já que não é bom em porra nenhuma, tenta ser o mais fodido no futebol e coloca ali – no gramado, nos jogadores, no técnico, na delegação, na estratégia – todas as suas expectativas de “felicidade”. Tanto tanto, a ponto de elencarmos o resultado das eleições com o do torneio.
Socamos e sovamos tudo na mesma panela sem a menor responsabilidade. E somos tomados por emoções absurdas, que nos engolem, nos alucinam, como um bando de tolos e analfabetos emocionais, incapazes de separar as coisas.

Por outro lado, também sei que perdemos tanto – como povo e como país – e sempre, e estamos tão cansados, que não sabemos mais perder. Não suportamos mais perder. Não queremos mais perder. Nada. E então, quando acontece, esquecemos tudo e saímos agredindo pessoas e coisas, esbravejando nomes, apontando, como se tivéssemos aproveitado todas as nossas chances de gols. 100%. Do sofá de casa, com a cerveja gelada na mão, claro.No começo do segundo tempo começamos a buscar culpados, responsáveis, algozes. As redes sociais começam a mostrar as primeiras piadas e os primeiros “Não disse?”, “Fora Felipão, Fora Dilma”, “Fred cuzão”, “BEM FEITO, BRASIL!”.  Nos tornamos cada vez menores diante de tamanha derrota. Se tomar 7 gols não é fácil para nós, que dirá para eles que estão lá. E aumentamos o tom do julgamento cruel. É o óbvio: somos nós quando ganhamos, são eles quando perdem. E mergulhamos imediatamente no fundo do poço, sem qualquer dignidade. 7 gols.
Olho para aqueles meninos chorando e tentando sem conseguir e me comovo profundamente. Não dou conta do que viramos de repente. Não consigo acompanhar o coro que diz que “eles ganham para isso, porra”! Leio amigos inteligentes: “Felipão, explica pro meu filho que tá chorando, seu cretino de merda!” e não consigo acreditar. Não, eu não sou Peter Pan, mas preciso seguir acreditando que podemos ser melhores. Como seres humanos.

Então, por um instante, o jornal deixa de noticiar o vexame, para contar que a Vila Madalena está sendo destruída, que ônibus estão sendo queimados, que torcedores revoltados estão tocando fogo em bandeiras brasileiras em plena Avenida Paulista. Vejo meia dúzia de cenas sem querer mais nada disso. Sinto uma tristeza foda de resolver dentro de mim. Porque não é utopia, é uma certeza: podíamos ser melhores em nossa conduta. Em diversos âmbitos, mas sempre como seres humanos.

Perder é sempre uma merda, mas faz parte. Agora, perder como fizemos hoje, com esse comportamento lamentável, me parece muito mais covarde e pior do que tomar 7 gols na semi final da Copa do Mundo. Em casa.

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O gigante.

 

05fc6c9ecf6877addcf02c931d0046c0 Goya´s Giant, Francisco de Goya.

 

Andando na rua, a sensação é que o (pequeno) gigante tá bastante confuso e atrapalhado.
Em uns milésimos de segundos, ele tenta se levantar e encontrar alguma lógica em ter chegado tão longe. Mas, logo em seguida, parece não saber para onde ir e em nome de que ir.  Há tantos, tantos, tantos motivos que o gigante perdeu o sentido.

Enquanto a perna esquerda quer ir para um lado, a direita insiste em fazer força contrária.
E o tronco do gigante parece empacar. E as pessoas em sua volta especulam, olham, sentem pena. Umas fazem piada, outras lamentam a triste cena.

Completamente sem foco.
Frágil apesar do tamanho assustador.
Pequeno apesar de sua grandeza.
Como se tivesse tomado um enorme porre de bebida de quinta.

Antes de dobrar uma das esquinas, que provavelmente o levará a outro beco sem saída, o gigante suspira alto, cansado, abatido. Tentando subir outra rua. Com sede de luta, mas sangrando. Querendo brigar por tudo, mas sem ordem. Parece lutar contra si mesmo.

No olhar perdido, o pedido de ajuda é evidente.
Mas, ninguém sabe o que fazer se não olhar de longe e sentir tudo isso, cada um do seu jeito.
E – de preferência – protegido.

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